Un ollo de vidro: A Beleza de Belesar

Cóntanos Nicandro Ares Vázquez (Lucensia, nº 22, 2001: 75) que o topónimo Belesar provén do antropónimo godo Belisarius, homónimo do xeneral máis famoso de Xustiano na fascinante historia do Imperio Bizantino. Un territorio que sempre foi de encontro nunha das paraxes máis belas, o cal é dicir moito dentro da espectacularidade paisaxística da Ribeira Sacra. Por iso chamou a atención dun dos mellores coñecedores do noso país Outeiro Pedraio e, se callar, por iso Belesar é de todos e de ninguén, un patrimonio partillado polos concellos de Chantada e de Saviñao.

A festa da cereixa e do viño pon en valor a riqueza e a exuberancia natural de Belesar. Podería falarse tamén da pesca, das embarcacións tradicionais e do riquísimo patrimonio ribeirao. Todos os anos congrega a centos de persoas nunha cita coa beleza, coa música e cos froitos dunha terra abondosa e xenerosa.

Contodo, imaxino que xa sospeitabades que non vos ía falar só de paisaxe, senón tamén de paisanaxe. Todas as festas son encontro, diversión, alegría e constrúen lazos esenciais para as comunidades que as sustentan. As festas son do pobo, mais como fenómenos sociais non fican alleas á política nen á instrumentalización por parte das elites. O resultado da acción das forzas sociais e da estrutura das normas internas do campo social en que os individuos nos inserimos condiciona o noso habitus (Bourdieu, 1994).

Por iso remato coa antítese da festa, da beleza e do encontro fraternal: a corrupción. Porque é o que fai decadentes ás sociedades que a sustentan e amparan. A mostra é a idea fixada polo cinema do decante Imperio Romano, onde a corrupción e as bacanais se dan as mans en estampas de deshumanización e degradación ética e moral até a extinción do Imperio. A antítese do xeneral Belisario, a apocalíptica Cidade de deus de Santo Agostiño.

Realmente era necesario honrar como pregoeiro a alguén condenado e inhabilitado para desenvolver cargo público pola xustiza? Unha subversión do ditame xurídico instigada desde as elites locais, o reverso do popular. Que méritos e relacións tiña co viño, coas cereixas ou con Belesar este ilustre pregoeiro? Eis a innecesaria politización das festas por parte da elite local, como na Feira do viño de Chantada onde vai haber que aumentarlle ao palco para dar cabida a tanta autoridade.

Aínda que a beleza de Belesar poida con todo amparar e permitir socialmente certos comportamentos produce que no pecado nos vaia a penitencia.

E se Clinton é un(ha) Trump(a)?

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Farage ou Cameron? Le Pen ou Hollande? Hillary Clinton ou Donald Trump? Zapatero ou Rajoy? Sánchez ou Rivera? A chantagem ultraliberal do extremo centro para seguir virando para a direita e ampliando a hegemonia ultraliberal para maior glória de quem criou e se beneficiou da crise. É o papel da esquerda do centro do sistema fazer de simples coro duma das asas do establishment? Até aí chegou o fracasso ideológico-político da pós-moderna esquerda dos sujeitos múltiplos e das categorizações líquidas como a  da multidão? Estas questões são as que põe no foco o artigo de John R. MacArthur “Unión forzosa en torno a Hillary Clinton” publicado no Le Monde Diplomatique en español do mês de agosto.

Não deixa de remeter, mediante uma descarnada exemplificação, para a derrota histórica que sofre a esquerda no centro do sistema-mundo e um velho problema comum a épocas históricas regressivas sobre o que Gramsci lucidamente escreveu desde uma prisão por plantar cara ao fascismo. Um António Gramsci muito na moda da esquerda do relato (a do pastiche pós-moderno do vinho -picado e com verde- com gasosa), mas muito pouco lido, infelizmente. Contudo, se é um clássico é precisamente porque muitas das suas lúcidas reflexões, a começar pela importância central que outorga a filosofia da praxe, são ainda duma raivosa vigência:
“O conceito de mau menor é um dos mais relativos. Enfrentados a um perigo maior que o que dantes era maior, há sempre um mau que é ainda menor ainda que seja maior que o que dantes era menor. Todo mau maior se faz menor em relação com outro que é ainda maior, e assim até o infinito. Não se trata, pois, de outra coisa que da forma que assume o processo de adaptação a um movimento regressivo, cuja evolução está dirigida por uma força eficiente, enquanto a força antitética está resolvida a capitular progressivamente, a trechos curtos, e não inesperadamente, o que contribuiria, por efeito psicológico condensado, a dar a luz a uma força contracorrente activa ou, se esta já existisse, à reforçar”. [Quaderno, 16 (XXII)]
 Se no Brexit se caracterizou a todos os que disseram não a esta União europeia do capital como xenófobos, obviamente que desde David Harvey passando por Alex Callinicos ou Tariq Ali existiu um polo para o lexit que o laboralismo puido aproveitar para sair da armadilha à que a Terceira Via de Blair o conduziu, convertendo-o numa força não apenas alheia mas hostil a boa parte da classe trabalhadora do Reino Unido. Porém, Jeremy Corbyn preferiu não confrontar-se ao aparato do partido: quê esperança há então de que confronte a City e os privilégios das classes dominantes?
Nalguns lugares, caso do Estado espanhol, mesmo apercebim, com completa nitidez, hostilidade por parte da esquerda auto-referencial. Não se podia ajuntar ser de esquerda e apostar pelo Brexit, ao fim e ao cabo são os titulados emigrados os que vão ficar sem sanidade, não é?
Essa mesma hostilidade retorna agora se um não se posiciona do lado da Hilária, isso sim após o ritualismo de rigor de lamentar a derrota de Sanders. Em nenhum momento se questiona que essa conversão da esquerda em correlegionários do maniqueísmo ultraliberal impede a emergência duma nova força que seja de rutura com o establishment republicano e demócrata nos EUA, a melhor notícia que podia dar-se no Império. Isso é o que realmente demonstrou o Bernie.
No entanto, liquidada essa posição, o que fica é alinhar-se com Clinton e aguardar que a omelete se faça em romper o primeiro ovo.
Primeira dama de Estados Unidos, senadora e secretária de Estado é parte e actriz central na política imperialista das últimas três décadas. Eis a defesa da invasão do Iraque em 2003, que apoiou como senadora o 10 de outubro de 2002 defendendo a tese das armas de destruição maciça e o conceito de guerra preventiva do New American Century de Bush, que Giovanni Arrighi debulhou tão bem. É mais naquela ocasião apresentou como paralelismo na luta dos “Direitos Humanos” os bombardeios sobre Sérvia que Bill Clinton desenvolvera em 1999. Logo, com Obama pulou pelo bombardeio de Líbia e o derrocamento de Muamar el Gadafi sem autorização do Congresso, o que colide com a Constituição. Ambos cenários são hoje estados falidos, isso sim, reportam grandes benefícios aos estados centrais e alimentam a nova guerra fria com o islamismo.
Claro que sempre é possível, fronte ao excêntrico Donald Trump, sublinhar que é uma oportunidade histórica para ter uma mulher, uma imperatriz que adora as crianças, ou essa imagem foi a que leva cultivando desde que acompanhava a Bill como governador de Arkansas. Tanto adora as crianças que não hesitou em exercer lobbying desde a administração de Obama para passar os quartos dum programa federal  de luta contra o AIDS em Ruanda para os programas de formação da sua Fundação.
A filantropia da Fundação Clinton vai na mesma linha que o negócio da filantropia como lavado de cara do darwinismo social dos nossos dias. Salvar os elefantes em África enquanto se esquecem as famílias negras pobres de Arkansas, ao fim os Untermenschen de arestora. Que razões têm os que padecem o racismo estrutural da sociedade para apoiar o partido de Wall Street e legitimar uma das asas que os oprime? Quê garantias é que oferece Clinton para os milhões de migrantes? Que esperança para os milhões de excluidos que como a plebe de Roma vivem na mais absoluta miséria e há muito que não votam?
Hilária  última barreira face a barbárie. Esse é o discurso na moda. Pouco importa que ela própria recebera por três discursos perante os banqueiros da Goldman Sachs 225.000$ ou que seja uma das principais valedoras dos acordos de livre comércio. Entre 1977 e 1992 trabalhou num gabinete de advogados centrado nas patentes e na propriedade intelectual, os novos encloussers do capitalismo da onda ultraliberal, sempre adoecido por atingir novas metas na sua permanente destruição criativa. Logo, entre 1986 e 1992 passou ao conselho de administração da Walmart, empresa célebre pela sua agresividade com os sindicatos e a exploração da classe trabalhadora dentro e fora dos EUA. Isso sim, Hilária não cobrava 19.427$ como de média percebem os caixeiros da transnacional.
Firme defensora do Tratado de Livre Comércio de América do Norte (NAFTA) segue negando-se a opor-se no seu programa ao TTIP jogando a uma calculada ambiguidade por simples oportunismo eleitoral. Passou de ser uma firme defensora do mesmo a matizar o seu apoio na carreira com Bernie Sanders. Mesmo Donald Trump renega desse acordo, o que explica como célebres republicanos financiam a Hilária. Por exemplo, a presidenta de Hewlett-Packard Meg Whitmanou o neocon Robert Kagan. Até a família Bush anunciou publicamente que se ia abster nestes comícios.
Clinton é a candidata do grande capital, como já Bill Clinton fora o acelerador da financiarização e a contrarrevolução ultraliberal quando em novembro de 199 derrogou a Lei Glass-Steagall que desde 1933 separava a banca comercial da de negócios para evitar a especulação com o dinheiro das classes populares, uma das medidas que se tomaram após a crise de 1929 e que possibilitaram o New Deal de Roosevelt. Por certo uma medida que até alguns republicanos como John McCain repudiaram propondo anular essa derrogação
Porém, em definitiva, Clinton não é Trump dirá-nos a esquerda possibilista vacinada contra o esquerdismo. É possível, embora esqueçam que esse Trump donou à fundação dos Clinton mais de 100.000$ em 2009 e na primeira ringleira da sua terceira voda, em janeiro de 2005, estava o matrimónio Clinton.
As dicotomias da esquerda middle class apenas deixam para milherios de membros da working class um caminho para mostrar o descontento com a desigualdade crescente e apostar pela rutura: ou a abstenção ou o voto a Donald Trump. Uma working class que precisa com urgência vitórias, embora sejam simbólicas, contra um establishment etéreo que os esmaga sem piedade nem descanso década após década. E assim, o mal menor é o caminho mais rápido para chegar ao mal maior, toda vez que a “alternativa” da “esquerda” lembra cada vez mais à porta do inferno de Dante:   Lasciate ogni speranza voi ch’entrate. Isso sim, podemos concluir com MacArthur que:
Este tipo de discursos son un eco de la confrontación entre Jacques Chirac y Jean-Marie Le Pen en 2002, cuando la izquierda francesa tuvo que apoyar a un candidato de derechas para proteger al país del “peligro fascista”. Sin embargo, Chirac era sin duda más progresista que Hillary Clinton, en particular en materia de política exterior. En efecto, la campaña presidencial estadounidense podría equivaler a un duelo entre Angela Merkel y Silvio Berlusconi. Y la izquierda estadounidense ha decidido apoyar a Merkel.

A Perestroika de Filipe VI (II)

Nunca virá de fora
remedio ou esperanza.
Si o noso pobo morre
quedámonos sin patria,
pois patria e pobo son
o mesmo en dúas palabras
(C.E. Ferreiro-1968)

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Carles Sirera escreve um maravilhoso artigo que se titula “Cómo descubrí que me había salido del consenso” e que mesmamente tem aplicação para o estado atual da esquerda: tanto da que opera no maciço galaico quanto da que age no marco estatal.

O artigo merece insistir nalgumas questões:

1.- O único vetor de rutura na perpendicular da I Restauração bourbónica -ou bubónica para o caso pois as ratas praticam o transformismo e viajam nas malas como n’ A Peste de Camus- é o nacional e, concretamente, a construção da república catalana. Apenas isto e as esquerdas das nações negadas se saem da fábrica do “consenso” e, já que logo, de legitimidade da II Restauração.

Se Jaime Miquel explica como e porquê as forças estatais são recâmbios necessários para a perestroika do Filipe VI, que evitem males maiores à oligarquia cinzenta do Reino, a lógica política do ciclo eleitoral que remata neste 2016 demonstra que a hipótese da quebra do sistema de partidos (o “asalto aos céus“) não se produz e que, longe disto, mesmo recuperaram terreno os “velhos” para participar duma nova fábrica de consenso (a perestroika) desta volta com 4 grandes actores legitimando-o.

O anovador e, se calhar, mais preocupante e que no conjunto do Estado não há actores pela esquerda que fiquem de fora desse consenso para além das nações negadas que nunca entraram no consenso da construção nacional espanhola e exercem ainda como antagonistas.

E qual é esse consenso? Aceitação da dívida, do marco do euro, da monarquia, do mantimento do Reino como protectorado da UE, o novo pastiche demodé do “constitucionalismo”, o aumento exponencial da taxa de exploração, suplir a merma de recursos estatais pelos agasalhos ao capital mediante a detracção in crescendo de recursos do mundo do trabalho,  a aceitação do eleitoral como única via (mostra de impotência bem dissimulada pelo de pronto mais que retorna a abstenção aos níveis prévios das europeias coerentemente com a fim de ciclo eleitoral), e assim seguido.

 

2.- A “fábrica do consenso” funcionou também na esquerda baixo duas categorias.

A primeira é interna: a distorção absoluta do conceito da unidade popular, como se esta for uma simples coligação eleitoral entre cúpulas de aparelhos políticos, e o emprego torticeiro do mantra da unidade (orgánica arredor de cargos e não de acção fundamentada na praxe sobre um programa) como porta do consenso apresentando como disidente qualquer disenso que nem sequer se pode explicitar. De facto, esse “consenso” anulou até a democracia interna reduzindo-a a um jogo de espelhos semelhante à rua dos Gatos retratada por Valle Inclán. É, no sentido etimológico da palavra, um simulacro como exemplifica por exemplo o “referendo” de Podemos Galicia ou as armadilhas dos referendos telemáticos.

Esses jogos de poder e deformações grotescas, essa pus e essa bile, são as piores excrescências que se produzem no interregno do que falava António Gramsci, que se dão quando o velho não morre e o novo não dá nascido. E aí ligamos com a segunda categoria a da “nova política” fronte à “velha política” magistralmente condensada na “casta” no seu dia, mas em pouco tempo convertida já em pouco menos senil que as forças convencionais. Contudo, são hegemónicas nas gerações mais moças fronte às velhas que o são no resto.

Realmente, não há “nova política” se as fórmulas são as que se empregaram sempre e se não se questiona o “consenso” para além da sua epiderme. Eloquente ver a CSQP votar de consuno com o unionismo no Parlament, que Bildu e, em menor medida, o PNV sejam o inimigo a bater em Euskadi para estes novos actores. Não é menor que a abstenção continue inçando e o faça sobretudo nas camadas mais moças ou que cada vez a “esquerda” seja mais alheia à imensa maioria das classes populares.

 

3.- Como coda, quisera rematar lembrando algo que escrevi, há agora um ano, e que não é meu senão unicamente uma adaptação sem licença da respota que faz Antoni Domènech numa entrevista:

A história das utopias modernas mostra que estas costumam aparecer em momentos catastróficos, de derrota.

A Utopia de Tomás Moro é uma reacção ao desastre da conquista de América: Rafael Hytlodeo é um português que lhe conta a Moro o felizes que viviam os índios até a chegada dos invasores. Ademais, o primeiro livro da Utopia de Moro analisa com muito detalhe a catástrofe que supôs a destruição dos bens comuns na Inglaterra de começos do século XVI.

O chamado “socialismo utópico” é uma reacção à contrarrevolução, à catástrofe política que supôs para os movimentos populares a derrota de Robespierre. Precisamente, a eclosão do socialismo não utópico, o marxismo e o anarquismo, se produz quando o movimento operário retoma a iniciativa.

O 68 e o seu fracasso trouxe consigo a fragmentarização e o auge do pós-modernismo (sem entrarmos no desastre do bloco “socialista”). A queda do Muro de Berlim foi a sua consequência última e a vingança dos rendistas consumou-se quando Merkel apresentou a cabeça de Tsipras como trofeu. Também demonstrou que a socialdemocracia é uma utopia (nunca houve nem funcionou a socialdemocracia sem movimentos socialistas fortes). E como toda utopia está mais preocupadas pela harmonia e a felicidade que pela liberdade, ao invés que os movimentos revolucionários reais.

Com isto não quero dizer que a Syriza e o Podemos não proponham reflexões interessantes, críticas e lúcidas, mas a esquerda europeia tem que assumir já a construção de alternativas anticapitalistas. Que isto último – e central – seja compatível com as eleições já é outra história, como que estas sirvam para algo nos protectorados do sul de Europa para além de “emponderar” camarilhas, toda vez que não partem de processos que retro-alimentem a auto-organização e, sem soma, a construção de poder popular.

 

1ª parte: https://pasdofaro.wordpress.com/2016/07/07/a-perestroika-de-felipe-vi/ 

A perestroika de Felipe VI

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Jaime Miquel editou em 2015 (RBA) um dos melhores ensaios talvez do conjunto do Reino de Espanha no ano 2015 e uma sensacional peça de análise eleitoral, tanto da crise do sistema de partidos da II Restauração bourbónica, quanto do que muitos vimos denominando  como espaço de rutura.

Para entendermos o presente ciclo eleitoral e as dinâmicas sócio-políticas torna-se uma obra de obrigada leitura. Para os que vivemos mais inseridos nas dinâmicas partidárias é impossível não termos uma alta coincidência com as teses de Miquel e mesmo, de vez em quando, uma obra tão séria produz-nos algum que outro riso.

Fronte a artigos e obras de ocasião, tão do gosto do pastiche pós-moderno tão em voga ultimamente -e cuja capacidade de síntese é proporcional ao conteúdo, quer dizer, nula- ou fronte à incapacidade de muitos espaços partidários para lerem o presente como história (até aferrolhando o novo com inusitada velocidade como demonstrou a convocatória eleitoral de junho e a leitura do medo ou perdendo-se em intermináveis autorreferencialidades).

Porém, para todas estas questões estão as 399 páginas da obra de Miquel. Esta postagem, já que logo, obecede a outro cometido que passo a explicar.

Como participante da assembleia de Ámio, dentro do Encontro Irmandinho, e logo do Novo Projeto Comum (NPC), que derivou na fundação de Anova creio que é de interesse recopilar o que nos diz Jaime Miquel sobre esta etapa, tanto mais quando um referendo interno propiciou a fratura da organização e a liquidação na mesma dos que nas eleições europeias apostavamos por coaligar-nos com Podemos e Compromís e não com a IU de Yolanda Díaz e Cayo Lara como fórmula fixa para as alianças de Anova.

Aquele referendo produziu-se por uma escassa margem de votos a pesar de que, numa carta à militância, o porta-voz nacional de Anova (nada mais e nada menos que Xosé Manuel Beiras) afirmaba que “Podemos era uma incógnita” e apostava por reeditar AGE nas europeias.

O resultado imediato foi a demissão da Permanente de todos os que abalaram a postura que perdeu com o qual não apenas demonstraram que jogaram limpo, quando na maioria dos partidos apenas se convocam referendos para ganhá-los por amplíssima maioria numa perversão total; mas também um gesto estranho à cultura política do Reino: a demissão quando os resultados não acompanham e negarem-se a aplicar aquelas políticas em que não se acredita. Já que logo, coerência, antes de mais exprimida no plano interno. No entanto, nos círculos militantes, nas redes e nalguns panfletos o que se desenvolveu foi uma constante satanização dalgumas pessoas, que semelhava remeter à Conjura dos néscios. Agora, um analista fora dos círculos militantes faz um exercício, seguramente sem pretendê-lo, de justiça política.

Sobre as eleições galegas em que irrompe AGE escreve:

El 21 de octubre de 2012 se celebraron eleccioens autonómicas en el País Vasco y Galicia. En las de Galicia, el PP de Alberto Núñez Feijoo había revalidado la mayoría absoluta pero la noticia escondía un retroceso de más de cien mil votos respecto al año 2009. (…) La Alternativa Galega de Esquerda (AGE) de Xosé Manuel Beiras, cuya progresión se produjo en la segunda semana de la campaña. Este nuevo electorado no respondía a la partición del nacionalismo gallego en dos mitades, el votante de origen, del Bloque Nacionalista Galego (BNG), era uno de sus ingredientes principales, pero otro igual de importante era el socialista ya desmovilizado. AGE nacía en un nuevo espacio ciudadano que era transversal y de ruptura con el status quo, dando así respuesta a un elector insumiso y necesitados de aliados en las instituciones para imponer otras políticas.

(…)

Lo de Galicia lo explicaba Anova, el nuevo partido de Xosé Manuel Beiras, que era el socio de IU en AGE mientras que lo demás era muy limtiado.

E sobre as eleccións Europeas de 2014:

Después de un fado interminable, Anova fichó por los comunistas españoles despreciando el espacio electoral de la ruptura que había conquistado en las elecciones autonómicas.

Los nacionalistas vascos y catalanes junto a los gallegos del BNG y Anova sumaron un millón de votos más que en 2009 y siete actas que venían subrayar que España es un Estado plurinacional del sur de la Unión Europea. Esos diputados representan naciones distintas de la española, que nadie va a españolizar o castellanizar jamás, lo que sugiere un cambio profundo en algunas mentalidades y actitudes.

(…)

Lo de Anova fue algo análogo a lo del BNV [Bloc Nacionalista Valencià]. Había colaborado en la campaña del BNG de las elecciones autonómicas de 1997 con un estudio continuo de la intención de voto. Tuve como interlocutores a Francisco Jorquera y Mario López Rico, un equipo perfecto porque reuníamos el conocimiento profundo de la organización, la información electoral objetiva y la capacidad para perfeccionar la estrategia y diseñar acciones tácticas orientadas a la conquista de objetivos electores específicos. Pienso que hicimos un gran trabajo. El BNG le ganó las elecciones al PSdG-PSOE y todos conservamos un gran recuerdo de aquella colaboración.

Años más tarde me llamó Mario, en otoño de 2013. Estaba en Anova. Él y Luís Eyré entendían el fenómeno de la ruptura y sabían que había que dejarse liderar por los ciudadanos desde Madrid en las elecciones europeas y no por el PCE. Tenían el enfoque acertado y mantuvieron conversaciones con todos los que se postularon para liderar a los ciudadanos frente al resto de los partidos, y esto incluye a Podemos.

Beiras se había equivocado casi dos años antes creando AGE, porque habilitaba a los comunistas de Esquerda Unida, que eran residuales en Galicia. Y volvió equivocarse pactando lo mismo para Europa. Podemos conquistó casi noventa mil votos en Galicia por algo más de cien mil votos de AGE, el híbrido entre Anova y la Esquerda Unida de  Yolanda Díaz y Cayo Lara. Anova había despreciado su conquista electoral de 2012, que eran los votantes de la ruptura desmovilizados del PSdG-PSOE y quedarían reducidos a su esencia nacionalista, porque la comunsita no existe en la sociedad gallega. Comenté la situación con Mario a quien le recomendé lo mismo que a Pere: liquidar acuerdos y entenderse con Podemos, aunque dando por supuesto que ni ellos ni los valencianos tendrían cintura para hacerlo.

 

 

Isso sim, o que ardeu queimou-se e agora tocar olhar para o futuro e pensarmos em como e com quem o queremos construir para caminharmos para uma Galiza emancipada social e nacionalmente.

Notas fugazes sobre o #Brexit

Pedro Sánchez sobre o #Brexit: “esto es lo que ocurre con las consultas que vienen a trasladar a la ciudadanía los problemas que deben ser resueltos por los políticos“. E queda tão ancho porque não se podem fazer referendos no Reino de Espanha, que seria então da monarquia e das nações historicamente negadas? E toda a esquerda espanhola diz AMEN quando a mídia lhes diz que ganhou a xenofobia e a extrema direita. Que a culpa é dos votantes idosos (gerontofobia?) ou dos que nasceram em Inglaterra e não viram mundo… há argumentos fundíssimos desde logo, como aqueles que dizem que o PP ganha pelo rural galego como se as conquistas para o campo por parte da esquerda foram inúmeras e incontáveis. Para que questionar a mídia da oligarquia se nos dá uma explicação comodíssima e que não requer exercitar nem uma neurona.
Cousas como esta revelam o que representa  o extremo centro. Também que somos uma democracia de ínfima qualidade que produz uma sociedade abúlica e desinformada com uma paupérrima cultura política de base franquista. Ainda assim todos disputam quem é mais democrático e vivem a quilómetros do sentimento popular e da participação real da cidadania porque lhe temem realmente à democracia. Incluso os mais conspícuos enarboladores da bandeira do 15-M constroem projectos verticais onde as bases podem colar algum cartaz de ano em ano.

Toda a esquerda, praticamente, com a #Eurolândia dos oligarcas, dos #TTIP e das transnacionais. Com a cantinela da “reforma” da UE ou do Reino de Espanha sem nenhum viso de realismo com a correlação de forças existente. Pela manhã dizemos não ao TTIP, mas pela tarde alinhamo-nos com a City e Cameron por mais UE, limitando-nos a pôr-lhe a coda retórica da “reforma”. Sen ningunha credibilidade para as capas populares.

Assim caminha a esquerda europeia. Alinhando-se com o extremo centro e o establishment enquanto qualquer mudança substancial se enxerga no horizonte, ora a City, ora o FMI, ora o IBEX-35. Nem rastro de audácia. Nem uma faísca dos Estados Unidos de Europa e o que representavam na tradição marxista de Trotsky, Nin ou Castelao. Só os choros porque a extrema direita é muito mala e se impõe. Nem o mais lene recendo dum discurso que comece a penetrar nas capas sociais populares cada vez mais entregadas ao único voto que, mal que bem, está demonstrando ser o mais “antissistema” e ruturista que há no Velho Continente. E para mais INRI já não é a primeira vez que se passa. Porém seguiremos repetindo as consignas de “outra Europa” e demais lerias como papagaios. E seguiremos participando dos recortes. E continuará o crescimento da desigualdade limitando-nos a pôr parches até onde o ordoliberalismo o permita. E a degradação dos salários e das condições laborais será cada vez mais insuportável, enquanto nos lamentamos de que o precariado e os trabalhadores menos qualificados votem pela xenofobia.

Farange, Le Pen, Orban… têm claro (ou verbalizam-no clara e inteligivelmente pelo menos) o que não querem e aonde querem ir. Não fazem pinchacarneiros com o seu programa cada seis meses mudando de discursos. Não se abraçam a NATO, ao FMI e ao livre mercado para mostrar que boínhos e moderados são e que se pode confiar neles. Não fazem referenduns para que saia o #OXI e logo assinar o pior dos memorandos e gerir o desastre creido pelos liberais-conservadores da Europa oligárquica. Não caíram tão pouco na verborreia pós-moderna e vazía dos últimos vinte anos que não lhe diz nada aos que não passaram pela universidade ou não se empalmam -perdoando- com a cultura “chique”, que não passa dum cosmopaifoquismo insofrível ou dum pastiche em deconstrução permanente para não construir nada tangível. Não o apostam todo ao institucional sem mais alternativa que chegar a umas instituições hostis e mediante sujeitos de pouca ou nula credibilidade. E mais o centro-esquerda favorece a sua marginação das instituições e mantêm a aúrea incólume. E como são extrema direita não precisam falar de democracia interna para logo fazer o contrario.
Próxima parada a França de Le Pen e seguramente a esquerda votando o mal menor do PS da reforma laboral mais uma vez.  E o domingo ir votar com um sentimento total de orfandade e pinças no nariz.

Good bye Lenine!

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Para os despistados da paróquia Good bye, Lenine! é um filme alemão do ano 2003, dirigido por Wolfgang Becker e reconhecido pela crítica a nível internacional. A trama circunscreve-se a outubro de 1989 quando a mãe de Alexander Kerner, Christiane, cai em coma. Christiane, que fiel ao nome tem valores e princípios socialistas, sendo membro activo do SED (Sozialistische Einheitspartei Deutschlands) após o abandono do seu marido à República Federal de Alemanha. Porém, asinha se irá vendo que desses valores apenas ficam os símbolos e a parafernália.

Oito meses depois  do coma, a mãe supera o estado catatónico e o filho temendo uma regressão, de descobrir sua mãe a queda do muro de Berlim, decide ocultar-lhe a realidade mesmo realizando falsos telejornais. No entanto, a convalecente Christiane vai vendo cousas que não casam toda vez que pode sair à rua, mas a vizinhança, a auto-complacência e o tesão de seu filho seguem mantendo um relato e um imaginário coletivo que já não existe.

Finalmente, porém, a mãe remata por ser consciente da realidade embora comovida pelos esforços do filho segue simulando acreditar na realidade paralela que este lhe criou.

Mas que tem que ver esta sinopse com o quadro político do Reino de Espanha? Pois eis a fratura geracional que ilustra o último CIS. O precariado, permita-se-me a licença sem entrarmos a precisar agora se é un conceito válido ou não, aglutina-se já numa opção política que entre os menores de 25 anos soma tantos votantes como o resto de forças espanholas.

Por enquanto, as velhas gerações protagonistas da II Restauração bourbónica ficam leais ao regime. Clientes e cativos políticos que preferem seguir vivendo na realidade paralela da recuperação e negando-se a aceitar que é inustentável seguirmos com esta economia política. Também na fição daquele tempus fugit em que eram ditosos e felizes, antes de que as elites extractivas globalizadas precisaram ampliar a destruição criativa a velhas às velhas metrópoles e já não apenas às colónias.

Umas gerações que assumiram o rendismo, o apoliticismo e o There is not alternative e quantas máximas lhe foram inoculadas pelo poder durante décadas. Até foi precisa a reciclagem para os mais novos ganhadores da New Economy, pois precisou-se do invento de C’s. Porque também na direita uma boa parte do seu eleitorado entre as franjas etárias mais moças foi-se para não volver ao PP e isso que este partido segue tendo o BOE e todos os instrumentos para criar clientes. Ainda assim, ao PP sempre lhe ficará ocupar esse espaço da extrema direita do que um dia Fraga e Aznar hipocritamente saíram para disputar-lhe as instituições ao PSOE.

Todavia, estas eleições, em aparência, apenas farão então evidenciar um tsunami eleitoral cujas raízes estão simplesmente na degradação das condições económicas e no deterioro e adelgaçamento dessa classe meia -o que Nin chamava a não-classe- que garantia a “estabilidade” do establishment. Neste cenário, não há lugar para o social-liberalismo que vê evaporar-se milhões de votos em cada nova concorrência eleitoral, devorado pelos seus filhos: o filho mimado do ordoliberalismo sem complexos de C’s pela direita e o filho bastardo da socialdemocracia esquecida pela esquerda.

Porém, há mais que o aparente sempre. Supõem também a configuração dum bloco eleitoral à esquerda da miríade do establishment que terá 4 anos para dizer desde a oposição que propostas tem para o futuro e que terá que passar do relato às obras naqueles espaços do regime que ocupa e que lhe são furibundamente adversos, porque nunca o intruso é querido lá onde chega.

Para rematar duas  notas (e certezas) e um desejo:

A primeira nota é que a II Restauração e o Poder demonstraram ter boa saúde e estar em disposição de aguentar e ainda vencer o pretenso “asalto a los cielos” (por certo uma fórmula já empregue em 2002 por Evo Morales e o MAS em Bolívia). Tanto é assim que nem sequer o sistema de partidos explorou ou fará-o, finalmente, controladamente e com o PSOE vasculando (num último serviço não hisento de patetismo)  para o bloco ultraliberal.  O único fronte que pode fazer implosionar o regime segue a ser a República catalã e a agudização da dualização da sociedade nos próximos meses.
A segunda é que não deixa de haver também uma parte notável da cidadania postrada na cama do hospital que sabe que não há espaço na UE do euro e o TTIP para um projeto social-democrata. Que sabe que Syriza delenda est. Que é consciente de que o Reino de Espanha já não é um Estado soberano e sim um protectorado do BCE. Que bate em cada olhada, em cada situação da sua contorna social com a luta de classes e os abusos do Poder (do duro e do suave). Que se escandaliza com os vazios e o oportunismo. Que percibe que não há bases sociais firmes, estrutura territorial definida e programa… mas a necessidade de ter fé de Christiane e tão grande!

E o desejo? Talvez seja também certeza. Essa lucidez exprimirá colectivamente em espaços de decisão conjunta, que poderão ser ou não comuns aos do bloco eleitoral conjunturalmente maioritário. O tecido social e os militantes que combatem no real e concreto ao regime e não nas televisões são os que constroem realmente contrapoder. Na Galiza na construção do poder popular, como em qualquer formação social com elites rendistas, é indissociável a questão nacional, na realidade e não no relato, da questão social; embora tão pouco seja um relato de escassos ecos e fórmulas fixas como a “voz própria”. Há espaço para o soberanismo, mas deverá acreditar em que se queremos chegar longe cumpre ir a gusto.

 

 

 

Luta de classes
Fonte: La Voz de Galicia

 

As elites controlam os fluxos globais de informação e dinheiro, detêm os instrumentos de produção cultural e os mass merda e controlam as universidades. Qualquer debate público realmente existente está fixado e condicionado pelos altifalantes da oligarquia. Assim, há muito que as elites se cindiram da sociedade, mas há muito mais que não existe uma verdadeira rebelião contra essas elites e a ideia mesma das massas organizadas dirigindo a história evaporou-se durante décadas e ainda hoje está fora da cena.

Os novos movimentos sociais não conseguiram artelhar um novo sujeito revolucionário. A classe trabalhadora, noutrora organizada no movimento socialista derrotando o fascismo e arrancando as concessões do denominado welfare state, começou o longo declínio em Ocidente na década de 70. E nesse contexto de derrota escreve Christopher Lash o seu livro A rebelião das elites e a traição da democracia [existe tradução para o castelhano em Paidós, 1996]:

As massas não perderam apenas todo interesse na revolução; pode demonstrar-se que os seus instintos políticos são mais conservadores que os dos seus autonomeados porta-vozes e supostos libertadores.

Por enquanto, as elites detentadoras da hegemonia em sentido gramsciano têm uma visão cada vez mais mais globalizada e cindida de qualquer laço comunitário, quer nacional, quer local. Se o socialismo durante muito tempo clamava que os trabalhadores não tinham pátria, e não nos imos deter agora na longa listagem de debates e polémicas em torno a relação nação-internacionalismo no seio do marxismo, são as elites quem demonstram não tê-la ou, em rigor, são os únicos que não a precisam.

Na sua imparável marcha para o darwinismo social militarizado as elites isolam-se nas suas redes e enclaves e abandonaram qualquer pretensão de engarce na imaginada comunidade nacional. A sorte das classes populares não lhes interessa o mais mínimo e a religião do livre mercado e do capitalismo afoga qualquer dúvida nesta carreira ao desastre. Ainda que sempre houve uma classe privilegiada provavelmente nunca esteve tão perigosamente isolada num contexto onde os limites da biosfera estão cada vez mais ao límite.

Noutras cojunturas históricas as elites aceitavam que a riqueza traia consigo certas obrigas cívicas com a cidadania. Hoje a sorte das maiorias não lhes atinge nem a burguesia se sente ameaçada por uma autoorganização das classes populares que ponha em questão a cerna dos seus previlégios. A nação implica reconhecer e empatizar com a alteridade que partilha com nós uma história comum, uma cultura comum, um língua comum e um fogar comum.

Nada disso existe para uma elite que vive entre diversos fusos horários. A sua nação são as suas escolas privadas, a sua sanidade privada, os seus serviços de recolhida de lixo, os palcos VIP… Un darwinismo social extremo disfarçado de  cosmopolitismo. São cidadãos do mundo (do seu e exclusivo mundo falta-lhes esclarecer) que não aceitam nenhuma das obrigas que a cidadania concreta dum estado trai consigo, como pagar impostos ou contribuir proporcionalmente ao mantemento do gasto público e garantir umas condições de vida dignas para o cojunto da nação.

Umas elites extractivas e parasitas que mantêm no entanto a uma guarda pretoriana social. O 1% tem um 30% ao seu serviço, senão mais, os aliados da classe reitora e parte da burguesia entendida em tanto em quanto classe reitora e detentora dos meios de produção num sentido amplo (também a produção do sentido comum social e a reprodução da hegemonia). Em palavras de Vicenç Navarro [2016]:

Esta distinción –adversario versus aliados- es clave, pues el proyecto progresista requiere de una amplia alianza de fuerzas que representen a la mayoría de la población, y muy en especial a las clases populares. Pero tal mayoría no es, ni mucho menos, el 99%, pues hay al menos un 20% de la población que está sirviendo al 1% en su función controladora y reproductora de las relaciones de poder, y cuyos intereses están íntimamente ligados al famoso 1%. Este 20% juega un papel clave en la pervivencia del sistema de poder, donde el 1% superior controla los ejes del poder económico y financiero, y desde ahí los ejes del poder político y mediático.

La imagen del 99% frente al 1% no refleja esta realidad y erróneamente asume la posible alianza de las clases populares (que constituyen casi el 80% de la población) con este 20% que tiene intereses opuestos a los de las clases populares. De ahí la necesidad de recuperar categorías científicas de la estructura social  -como clases sociales- que han sido abandonadas por “anticuadas”, y cuyo abandono ha sido resultado del gran domino del 1% (es decir, de la clase capitalista) sobre la sociedad, de manera que a mayor poder tiene tal clase, menor es la aparición de tales términos en la narrativa del discurso hegemónico de la sabiduría convencional.

Daron Acemoglu e James A. Robinson publicaram um livro sucedido intitulado Por que as nações fracassam: as origens do Poder, da prosperidade e da pobreza. O seu argumento central  reside na diferença entre instituições económicas inclusivas e extractivas. Segundo os autores, instituições económicas inclusivas são aquelas que permitem que a riqueza seja disseminada pela sociedade, enquanto instituições económicas extractivas são aquelas que concentram a renda em uma elite privilegiada. No longo prazo o desenvolvimento só será sustentável na presença de instituições económicas inclusivas.

Todavia, o livro conclui dizendo que o o desenvolvimento da economia de uma nação é directamente proporcional à qualidade de sua democracia e esta evapora-se quando a riqueza se concentra atingindo certos níveis, embora formalmente poda manter-se um regime de democracia liberal (que para os autores semelha ser a única democracia possível por isso não podem explicar porque a riqueza da China é maior do que a que apresenta Índia, etc.). Porém, para o caso, Acemoglu e Robinson nas conclusões recolhem três implicações fundamentais para o mundo contemporâneo:
a.- A ajuda humanitária internacional não vai  mudar a realidade económica dos estados em desenvolvimento nunca, toda vez que não põe em questão o desenho institucional desses estados.

b.- A percepção de que o autoritarismo pode ser eficiente na promoção do desenvolvimento é ilusória. A pesar de que regimes deste teor podam gerar surtos de crescimento, muito desiguais bem é certo, são incapazes de promover o desenvolvimento económico sustentável.

c.- O crescimento económico da China eventualmente será assolapado pela natureza extractiva das instituições políticas chinesas. A China tem logrado uma expansão económica acelerada devido a um modelo que aloca compulsivamente a mão-de-obra em se sectores rentáveis. Eventualmente, o deficit educacional e de inovação irá reduzir o crescimento económico chinês.

Porém para a nossa exposição o mais relevante é o conceito de elites extractivas, que não deixa de ser a vingança do rendista que Keynes cria ter afastado após a II Grande Guerra, em 1945. O rendista, a oligarquia mundial ou a burguesia de arestora, abeira do bem comum e simplesmente se ocupa do próprio bem-estar para o que é preciso um sistema de continuada extracção de rendas. Isto explica, por exemplo, como no Reino de Espanha os fogares mais pobres (20%) pagam tantos impostos como os mais ricos (10%) e como o discurso do “emprendedor” e contra os impostos, tão aceite em boa parte das classes populares, foi central na direita quando beneficiou fundamentalmente à elite: SIVAC que tributam a 1%, iniciativas filantrópicas que desgravam, os Panama papers, os resgates à banca e um sem fim de ferramentas que adelgaçam os ingressos do Estado que deve cobrir a mesma classe trabalhadora que sofre a precaridade, o desemprego maciço e os recortes na sanidade ou na educação.

Acemoglu e Robinson dizem-nos que são os políticos e as instituições políticas dum estado as que determinam a qualidade das suas instituições económicas. E aí estão os Blesa, Rato, Gayoso… Aí os Marcial Dorado ou os Amancio Ortega agasalhando com máquinas a um SERGAS que se desmantela. No atual processo político os cidadão perderam a capacidade de controlar os seus representantes públicos, por isso abusam sistematicamente do poder e empregam-no para os fins da oligarquia ao temo que amassam fortunas pelos serviços prestados.

Eis a natureza intrínseca ao sistema da corrupção política que atinge por igual a funcionários e políticos e eis porque não é possível a reforma senão que a única saída é a rutura da globalização realmente existente (a de Eurolândia e os TTIP) e a construção de contrapoder para mudar a correlação de forças atual.

As instituições políticas e económicas extractivas sempre foram parelhas nos processos históricos à correlação de forças em cada sociedade e altura. Geram prosperidade para uma pequena elite que controla aos desposuídos. Até nos Trinta Gloriosos essa glória foi apenas para o Ocidente e o Japão e manteve-se certa redistribuição social nesses espaços pela presença da ameaça soviética e os sindicatos e partidos da classe trabalhadora fortes que obrigavam a manter o welfare state como ferramenta de pacificação social.

Com o fim da história de Fukuyama, com a queda do muro de Berlim, remata um ciclo decisivo da história da luta de classes e ao socialismo sucede-lhe a barbárie, nesse contexto quem controla o estado converte-se em beneficiário desse poder excessivo e da riqueza que gera. E aí a lição final que tão clara é também no Reino de Espanha: as instituições extractivas criam incentivos para as lutas internas pelo controlo do poder e os seus benefícios.  Eis a oligarquia canhí dividida e confrontada pelo controlo do BOE, as migalhas que as elites extractivas europeias deixam para a porta de África.

 

Bibliografia:

Acemoglu, Daron e James Robinson (2012), Por que as nações fracassam: as origens do Poder, prosperidade e da pobreza, Rio de Janeiro: Elsevier.

Navarro, Vicenç (2016), “Algunas izquierdas están equivocadas. El mito del 99% versus el 1%” em Público, disponível em linha: http://blogs.publico.es/dominiopublico/16910/algunas-izquierdas-estan-equivocadas-el-mito-del-99-versus-el-1/ (última consulta 08/06/2016).

 

 

cartel-psoe-1979
Hegel observa algures que todos os grandes factos e personagens da história universal aparecem como que duas vezes. Mas esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia e a outra como farsa. Caussidiére por Danton, Louis Blanc por Robespierre, a Montagne10 de 1848 a 1851 pela Montagne de 1793 a 1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma caricatura nas circunstâncias em que apareceu a segunda edição do 18 de Brumário!
(…)
Frente à burguesia coligada formara-se uma coligação de pequenos burgueses e operários, o chamado partido social-democrata. Os pequenos burgueses viram-se mal recompensados depois das jornadas de Junho de 1848, viram em perigo os seus interesses materiais e postas em causa pela contra-revolução às garantias democráticas que deviam assegurar-lhes a possibilidade de fazer valer esses interesses. Aproximaram-se, portanto, dos operários. Por outro lado, a sua representação parlamentar, a Montagne, posta à margem durante a ditadura dos republicanos burgueses, tinha reconquistado durante a última metade da vida da Constituinte, com a luta contra Bonaparte e os ministros realistas, a sua perdida popularidade. Tinha estabelecido uma aliança com os chefes socialistas. Em Fevereiro de 1849 festejou-se com banquetes a reconciliação. Esboçou-se um programa comum, criaram-se comités eleitorais comuns e proclamaram-se candidatos comuns. Às reivindicações sociais do proletariado limou-se-lhes a ponta revolucionária e deu-se-lhes uma volta democrática; as exigências democráticas da pequena burguesia retirou-se a sua forma meramente política e afiou-se a sua ponta socialista
 
A nova Montagne, resultado desta combinação, continha, prescindindo de alguns figurantes da classe operária e de alguns sectários socialistas, os mesmos elementos que a velha Montagne, só que numericamente mais fortes. Mas tinha mudado, no decurso do desenvolvimento, com a classe que representava. O carácter peculiar da social-democracia consiste em exigir instituições democrático-republicanas, não como meio para abolir ao mesmo tempo os dois extremos, capital e trabalho assalariado, mas para atenuar o seu antagonismo e convertê-lo em harmonia. Por diferentes que possam ser as medidas propostas para alcançar este fim, por muito que se possa revestir por representações mais ou menos revolucionárias, o conteúdo permanece o mesmo. Este conteúdo é a transformação da sociedade por via democrática, mas uma transformação dentro do quadro da pequena burguesia. Não se tenha a representação limitada segundo a qual a pequena burguesia quer impôr, por princípio, um interesse egoísta de classe. Ela crê, pelo contrário, que as condições particulares da sua emancipação são as condições gerais fora das quais a sociedade moderna não pode ser salva
nem se pode evitar a luta das classes. Também não se deve imaginar que os representantes democráticos são todos shopkeepers ou pessoas que se entusiasmam com eles. Podem estar a um mundo de distância deles, pela sua cultura e pela sua situação individual. O que os faz representantes do pequeno burguês é que a sua cabeça não ultrapassa os limites que aquele não ultrapassa na vida; que, portanto, são teoricamente impulsionados para as mesmas tarefas e soluções para as quais o interesse material e a situação social impulsionaram, praticamente, aquele. Tal é, em geral, a relação existente entre os representantes políticos e literários de uma classe e a classe que eles representam.
 
Por tudo o exposto se torna por si mesmo evidente que se a Montagne luta constantemente contra o partido da ordem em torno da república e dos chamados direitos do homem, nem a república nem os direitos do homem são o seu fim último, do mesmo modo que um exército a quem se quer retirar as armas e que se defende não se lança no terreno da luta apenas para ficar na posse das suas armas.
Logo na abertura da Assembleia Nacional, o partido da ordem provocou a Montagne. A burguesia sentia agora a necessidade de acabar com os democratas pequeno-burgueses, tal como um ano antes tinha compreendido a necessidade de acabar com o proletariado revolucionário. Mas a situação do adversário era diferente. A força do partido proletário estava na rua, e a dos pequenos burgueses na própria Assembleia Nacional. Tratava-se, pois, de os tirar da Assembleia Nacional para a rua e fazer
com que eles próprios destroçassem a sua força parlamentar antes que tivessem tempo e ocasião para a consolidar. A Montagne correu para a armadilha a rédea solta. 
Karl Marx: O 18 Brumário de Luís Bonaparte.

#DebateTVG

votar con pinzas no nariz

 

Unha hora e dez minutos que se quedou em 70 minutos. Isso foi o que durou o debate na televisão pública com representantes das diversas forças que concorrem nas vindouras eleições estatais, agás Ciudadanos, que sem programa na Galiza e após o ridículo em Vía Televisión não assistiu. Um debate num horário que distou muito de ser o ajeitado e centrado em três grandes blocos temáticos, a saber: economia e emprego, políticas públicas e modelo de estado.

Assistiram então representantes do PP, do PSOE, de Nós-Candidatura Galega e de En Marea. O PP recuncou na teoria da <<herdança recibida>>  dos governos do PSOE tão cara à direita galega a todos os níveis e tentou interromper cada vez que as cousas se davam mal. Barreiro fez uma defesa, baseada nas médias verdades quando não na mentira directa, da gestão de Mariano Rajoy quem o 20 de dezembro terá a duvidosa honra de fechar a pior legislatura da II Restauração bourbónica.

O PSOE, como de costume desde a reforma express da Consituição e a rendição de Zapatero no Eurogrupo -selando a viragem ultraliberal deste partido-, encontrou-se perdido  e a sua representante desaparecida no debate. Em nenhum momento pareceu alternativa ou o principal partido da oposição, a pesar de que o discurso de Barreiro (PP) precisava do PSOE como antagonista. Mas, o antagonista estava ausente.

Nem que dizer tem que Antón Gómez e Carme Adán foron os únicos que falaron das persoas e de políticas ao servizo da maioría social. No entanto, há um campo onde a febleza da esquerda segue a ser importante: a coerência e planificação das propostas de economia politica. Não se pode falar, por exemplo, de reforma fiscal sem apresentar os instrumentos para essa reforma fiscal ou duma banca pública galega sem soberania económica nem em Madrid nem muito menos na Galiza. A soberania galega, o factor fundamental para sermos independentistas muitas e muitos de nós não é outro que uma necessidade de economia política para o desenvolvimento centrado na Galiza e uma economia construída em parâmetros nas antípodas do marco ultraliberal.

Como nos debates se procura um ganhador advogaria por Carme Adán. Apresentou propostas após apresentar os problemas, com soluções centradas e concretas na Galiza (por exemplo, a tarifa eléctrica galega ou a solicitude da reforma do modelo de Estado para um cupo galego). Aliás, foi a que, em minha opinião, melhor confrontou com o PP.

Os problemas da mocidade, o desemprego e a necessidade de fazer fronte a desigualdade, a derrogação da reforma laboral, blindar a educação e a sanidade públicas, igualdade, a derrogação do artigo 135 da Constituição espanhola… foram questões em que Nós, En Marea e até, por vezes, o PSOE  confluíram.

Antón Gómez-Reino começou demasiado centrado em si próprio e foi melhorando conforme avançou o debate. No entanto, em bastantes aspectos ficou bastante difuso, se bem é certo que os restantes participantes contavam com a vantagem duma experiência em primeira linha da política mais dilatada que Gómez-Reino, que tão pouco é, nem muito menos, um recém chegado à política como deixou cair ao começo da sua intervenção apresentando-se como “activista social” e participante nos movimentos sociais e na Maré Atlântica.

Pouco se falou das Deputações e a sua supressão. Pouco da reforma do modelo de Estado ou da reforma consitucional. Menos de ruptura se é que alguém ainda a mantém. Tão pouco o direito a decidir se traduziu em muita cousa a pesar de ser um dos eixos vertebradores de En Marea e Nós. Faltou tempo, talvez.

Na quenda final, o PP teve a última palavra para seguir mentindo, apresentado-se como a garantia da estabilidade e deu por superada a crise. Cancela perguntou retoricamente à população se melhora ou piora a sua qualidade de vida após 4 anos de políticas de Rajoy e 7 de Feijoo. Carme Adán fixo um chamado às classes populares e lembrou o passo do BNG pelo Congresso espanhol. Por último, o representante de Podemos fechou o debate falando da “primavera” que começou com as marés no mês do maio.

De Marx e o logos a Prometeu e o mito

Publicado em O Afiador da Galiza em 06/06/2011. Revisto em 09/12/2015.

Wäre es da

Nicht doch einfacher, die Regierung

Löste das Volk auf und

Wählte ein anderes?, Bertold Brecht: “Die Lösung”1.

 Dizia Gramsci, ao analisar a análise da arte que se dava no livro Ensaio Popular de Lukács, que o juízo o oferecido do Prometeu de Goethe era superficial e e extremamente genérico, dando a impressão, segundo o filósofo italiano, de que Lukács desconhecia tanto a história do mito de Prometeu na literatura mundial antes de Goethe como o seu tratamento em tempos do próprio autor alemão2. António Gramsci perguntava-se como é que se podia distinguir então o que era estritamente pessoal de Goethe do que é representativo da época e dos seus grupos sociais sem recorrer à filosofia da praxe3.

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